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“Taverna superna”, por José
Quitério
ATÉ 1930 chamada Aldeia Galega do Ribatejo, a actual cidade
do Montijo, ribeirinha do Tejo e na zona norte da península
de Setúbal, não descurando o seu passado, encontra-se
hoje num momento de forte transformação e crescimento.
É claro que para tal contribuiu decisivamente a nova acessibilidade
que lhe proporcionou A Ponte Vasco da Gama. Para o lisboeta, é
só atravessar a ponte e já está (é como
quem diz). Dêem-se as voltas necessárias para captar
o espírito (e a matéria) do lugar e, quando se impuserem
os direitos indeclináveis do estômago, tome-se como
referência o Hospital, não para lá ir mas porque
fica perto a Rua Gago Coutinho. Comprida e de casas baixas, é
numa delas (nº 89), com barras amarelas na porta e janelas,
que se descobre o Restaurante TAVERNA D'EL REI. Sala airosa e confortável
para cerca de 40 mastigantes, gravuras de reis e rainhas pelas paredes,
aqui reina o chefe de cozinha António Sequeira.

Vamos já na pista da lista. ENTRADAS: "salada mista"
(€ 1,50), "lapas da Madeira" (€ 7,50), "morcela
dos Açores com ananás" (€ 3,50/€ 6),
"camarões com alho" (€ 4/ € 7), "gaspacho
de maçã com língua de porco fumada crocante"
(€ 3,50), "queijo de cabra gratinado" (€ 4),
"ovos mexidos com coentros e farinheira, folha de espinafre
crocante" (€ 4) e "mil-folhas de bacalhau, pimento,
grão, com vinagreta de azeitonas pretas" (€ 6).
PEIXES: "robalo na telha" (€ 20, 2 p.), "bacalhau
à João do Buraco" (€ 7,50/ € 9,50),
"bacalhau de segredo" (€ 9,50), "lombo de cherne
com molho de camarão" (€ 9), "lulas recheadas"
(€ 6,50/ € 8,50), "filetes de dourada em farinha
de milho" (€ 8,50) e "espetada mista com molho de
avelã" (€ 9,50). CARNES: "bife à Taverna"
(€ 7/ € 9,50/ € 13,50, consoante seja de alcatra,
da vazia ou do lombo), "migas com carne de porco e eiroses"
(€ 7,50/ € 10), "javali" (€ 7,50/ €
10), "carne de porco à pescador" (€ 9,50),
"arroz de pato gratinado com queijo e frutos secos" (€
7,50/ € 9,50), "frigideira de carnes" (€ 7,50/
€ 9,50), "lombinho de porco com couves azergalhadas"
(€ 7,50/ € 9), "frango com amendoins e cerveja"
(€ 6,50/ € 8,50) >e "esparguete à bolonhesa"(€
6,50). A mais que isto há um prato do dia e, ao almoço,
uma modalidade em que por meia dose do prato do dia mais pão,
bebida e café se paga € 7.
Na mesa, realce
para o muito bom pão, quer
o trigal quer o de centeio, servido numa aconchegada peneira. E
venham de lá as entradas do edifício prandial. Desde
logo fora do vulgar o "gaspacho de maçã com língua
de porco fumada crocante" - um creme frio do fruto esmagado
também com cebola e pão, a tira lingual acoplada de
modo a poder segurar-se com os dedos e ir-se trincando como separador
das colheradas - resultou numa feliz e contrastante combinação.
Em sua aparente
simplicidade, os "ovos mexidos
com coentros e farinheira", mais a nota ornamental da folha
de espinafres crocante, estiveram belíssimos em sabor e textura,
com a ternura adicional da apresentação em forma de
coração. Mais tártaro que mil-folhas, mas com
todos os seus elementos valorosamente acomodados para o brioso acordo
entre as partes, brilhou o "mil-folhas de bacalhau, pimento
e grão com vinagreta de azeitonas pretas", adornado
de endívias
O "bacalhau à João do Buraco"
deve o nome a essa alcunha pela qual era conhecido João Pereira,
que nos finais do século XIX teve estaminé na portuense
Praça Guilherme Gomes Fernandes. Num prato de ir ao forno
dispõem-se cebolas às rodelas que antes refogaram;
junta-se-lhes o bacalhau (que levou já uma fervura) às
lascas, salsa e pimenta; por cima põe-se uma camada de amêijoas
e outra de camarões, evidentemente desconchadas e descascados;
depois, molho branco com duas gemas de ovos; cobre-se com puré
da batata, a que se junta duas claras batidas em castelo; vai para
o forno até ficar bem louro. Foi bem interpretada esta original
(e actualmente tão pouco praticada) receita do Porto. Originária
mesmo do Montijo parece ser a do "bacalhau de segredo",
a posta passada por farinha e frita, coberta por um refogado de
cebola, chouriço e entremeada picados, na companhia de batatas
cozidas às rodelas grossas e impregnadas do molhinho: a conjugação
de gostos é agradavelmente compatível. À partida
insólitas são as "migas de carne de porco com
eiroses", todavia os ingredientes portaram-se galhardamente
e a miscelânea não desagradou. Na também montijense
"carne de porco à pescador", os rojões porcinos
estagiados em vinha-d'alhos e batatas fritas aos cubos, o toque
inusual é a junção de camarões cozidos,
que sempre alegram a vista e refrescam o paladar. No "lombinho
de porco com couves azergalhadas", há que dizer que
estas são estufadas e complementadas com abóbora,
feijão vermelho e um dedal de moscatel, cabendo ainda ao
primacial e curial lombelo a assistência suplementar de batatas
singularmente montadas (cozidas com a pele partidas ao meio e as
duas metades unidas por palito com uma rodela de chouriço
de permeio), num conjunto rico e jucundo.
A doçaria comparece em esplêndida aparência.
E, excepto o "pudim Abade de Priscos" (€2,50), de
consistência pouco homogénea e algo esponjosa, deram
boa conta de si o "semi-frio de vinagre" (€ 3), "marquesa
de chocolate" (€3), a "lágrima real"
(€3) e a "torta de claras com amêndoas" (€ 2,50).
A carta de vinhos está suficientemente guarnecida,
de todos é indicada a respectiva data de colheita e os preços
são comedidos. Serviço eficiente, informativo, discreto
e gentil.
Pelo exposto - sublinhando
a fuga à
rotina da maioria das propostas, as notas de originalidade e também
de regionalismo, o bom trabalho culinário e as apresentações
esmeradas -, o chefe António Sequeira e a sua equipa mais
que justificam a visita.
Artigo de Opinião de José Quitério
na Edição de 13/07/2002 do Jornal Expresso
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Informações:
913 327 476
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Actualizado
em:
17.10.2008 8:47
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